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A vida em horas

10 Dezembro, 2007

Tenho de coordenar tudo… Preciso da minha agenda!! Onde é que ela está? Tenho a certeza que a deitei para dentro da mala depois de marcar a consulta do João… Malditos médicos, não podia uma pessoa chegar lá e dizer “Estou doente”?

Deixa-me olhar para o relógio… Não, não pode, 15h57 já? Ai, as 15h57, lembram-me coisas boas, coisas para as quais não tenho tempo…

Morre relógio, que não páras enquanto não a encontro… Morre para aí mais o tempo que vejo passar em ti! Odeio-te com todas as minhas forças, sabes? Odeio o ponteiro pequeno dos segundos, odeio o barulho que faz, aquele tac-tac irritante. Sim, tac-tac, porque não sei quem inventou que os relógios faziam tic-tac, mas os meus nunca mudaram de barulho a cada segundo. Não, este faz tac-tac.

Só encontro calendários nesta mala. Que mania de oferecerem calendários por tudo e por nada… De fazerem calendários até para causas de solidariedade (e solidariedade para comigo? A cada ano que vejo aproximar-se, a cada calendário novo que me entregam, vejo que se passou mais um ano. As minhas rugas já não perdoam, os brancos também não, mas escusavam de me estar sempre a pôr-me à frente a idade). As agendas já têm calendários que cheguem…

Para que é que preciso de uma agenda? Para me controlar a cada passo? Para não poder inventar um bocadinho durante o dia? Já não me lembro da última vez que saí e me esqueci de fazer algo… Sinto falta de me sentir irresponsável, como nos meus anos de escola, em que me lembravam as datas de entrega com dois dias de antecedência e passava duas noites acordada a fazer o que era preciso ser feito…

Eu sempre odiei agendas… Porque é que comecei a andar com uma? Não me lembro, nem me lembro da primeira já, mas deve estar algures na gaveta das agendas antigas… Já não a abria há séculos… Que medo, são tantas… Há tantos anos assim que tenho a minha vida controlada?

Horas depois, achei a minha agenda… Arranquei-lhe as folhas uma a uma.

foto: the notebook por ~bloxham

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One comment

  1. E mais uma vez surpreendeste-me, sabes que gosto que escrevas, mas nunca esperei ler, assim tão cedo, uma coisa desta qualidade. Adorei a escrita na primeira pessoa, a cadência com que escreves, com que exploras a visão do narrador perante o tempo e tudo o que sirva para o marcar ou registar. Adorei, meu amor. Fascinas-me cada vez mais.
    Amo.te



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