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Jornais de 2008

25 Novembro, 2007

Todos os dias… Já nem sabia quantos dias tinham passado, já nem sabia que dia era, porque os jornais em que dormia tanto eram de 2005 como de 2007… Será que já estaria em 2008? Se assim fosse, a sua filha mais velha faria 30 anos…

«És uma desilusão para todos os que te rodeavam… Estás melhor longe.»

Ainda se lembrava dela pequena, a pedir com os olhos brilhantes que lhe comprasse o chocolate que estava na montra da pastelaria… O chocolate que ele não podia comprar… O chocolate que acabou por comprar depois de um ano sem gastar nada consigo, um ano a andar com os mesmo sapatos gastos e rotos, para poder comprar o chocolate que a menina queria…

«Ninguém te quer por perto, só trazes confusões.»

E os dezoito anos dela, que se celebraram junto à lareira por não se poder fazer mais nada… E o pequeno estava a fazer dez daí a dois meses… Já jogava à bola como um campeão e sonhava ser estrela como o Eusébio, poder jogar perante todas aquelas pessoas… A plateia a aplaudi-lo… Plateia que por enquanto não passava das pedras da rua e o gato da vizinha, que ocasionalmente tinha de fugir do objecto redondo que ia na sua direcção…

«Nunca trouxeste bem nenhum a ninguém.»

Há uns anos tinha descoberto que a menina era agora mulher e mãe… Era enfermeira e tinha um marido médico… Estava bem, esperava… Bem melhor do que com ele perto. Ele não trazia bem nenhum a ninguém…

«Nunca deste alegrias a nenhum deles.»

– E o chocolate? Ela ficou tão feliz que só comeu um quadradinho por semana e o chocolate durou meses… E o miúdo quando lhe fiz a primeira bola de trapos e o ensinei a jogar? E a cara da minha mulher quando eles nasceram? Talvez eu tenha feito alguma coisa…

«Não te iludas… Ninguém te quer…»

– Não, não vou atrapalhar a vida de mais ninguém…

E adormeceu…

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One comment

  1. Ainda não tinha comentado, mas adorei.
    Gosto da forma humana com que escreveste, gostei dos apartes, do texto que nos leva a pensar em várias vertentes.
    Muito bom, muito bom.
    E acima de tudo gosto que escrevas, gosto de perceber ainda mais o que te vai na alma.

    Sempre. Amor.



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