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(não tenho imaginação para um título)

8 Abril, 2008

Queria saber explicar-te. Queria poder mostrar-te o quanto gosto e preciso de ti. Preciso de inventar novas palavras, de arranjar novos conceitos, porque os que existem não me estão a chegar.

Um dia gostava de te fazer entender o quanto me mudaste, tudo o que me fizeste compreender, o quanto deste sentido a tudo.

É parolo, não quero saber… Já não tenho medo de me deitar à noite, já não tenho medo dos papões da minha mente que me vinham trocidar as ideias… Um ou outro ainda me escapa, quando estou mais distraída, ou mais estranha, mas não posso fazer nada. Há uns que são demasiado fortes e demasiado presentes…

Ainda assim, queria fazer-te entender o quanto preciso da tua respiração nas minhas costas (um mero sinal de que existes mesmo e estás aqui). Ainda preciso de provas em como existes, em como a minha imaginação não te criou de qualquer sonho absurdamente feliz que tive um dia qualquer. Não, tenho de provar que és real, tenho de te achar no fundo do castanho dos teus olhos, tenho de me achar.

Estou confusa com este post, já… Não sei por que o comecei, nem sei por onde foi… Sei que estou aqui, sei que estás ao meu lado… Depois disso, acho que já nada mais importa.

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31 Março, 2008

Anda lá… Vamos sair os dois, que os miúdos hoje não estão cá… Já não vamos passear há tanto tempo… Tu às vezes ainda sais, mas eu ando sempre por casa a arrumar tudo. Sinto falta de estar contigo, os dois sozinhos, a fazer disparates. Lembras-te de como éramos?

Oh, não venhas com essas coisas de que antes de termos filhos era tudo muito melhor, eu não os trocava por nada! O que é que queres dizer com “Isso já eu sei há muito tempo” José António?? Tu é que não lhes ligas nenhuma. Nem vais ver os teatros do teu filho mais novo, nem ligas nada aos estudos do mais velho… Já para não falar nas danças da menina, mas pronto, tu nunca gostaste de danças…

Mas tu preferes a tua máquina fotográfica… Preferes sair de casa às seis da manhã, sem olhar para as caras deles, e meteres-te por meio dos cabernais para tirar retratos… Eu quero lá saber se não se chamam retratos, quero é saber se ligas aos teus filhos! E isso de teres prometido que ias tirar um tempo para a família… Só tira tempo para a família quem não está com ela numa base constante…

Nem sequer falo de mim, olhas para mim quase como uma obrigação… Se não querias, não me tivesses engravidado com as manias de que o preservativo te tirava a sensibilidade… Sensível nunca foste tu! Só eras uma florzinha quando vias uma seringa a olhar para ti na mão do farmacêutico, quando levavas a vacina da gripe todos os anos…

Ai estás ofendido?! Pois olha, ao menos agora podes tirar o teu tempo para a tua máquina, que eu vou sair sozinha e não sei quando volto. Vai buscar os miúdos a casa dos avós que eles também são teus filhos (e daí quem sabe…).

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Anti-h

28 Janeiro, 2008

“A hero is an ordinary individual who finds the strength to persevere and endure in spite of overwhelming obstacles.”

Era o que dizia o Christopher Reeve. Eu aguento-me, não sei como, mas aguento. Ou vou aguentando, porque não sei viver de outra maneira. Porque toda a vida sempre foi assim, e não conheço outras vivências.

Nunca fui de me encostar, nunca consegui deixar seguir e viver a minha vida. Porque a minha vida não é só a minha, não é independente. Eles não são independentes. Dependem de mim, mas já me faltam as forças.

Mas eu consigo, eu sou capaz… Se sempre fui, porque não hei-de ser agora? Agora que eles mais precisam de mim (ou será que sempre precisaram?). Não, agora é o momento decisivo, é a minha batalha final, e depois vivo a minha vida. A minha. Como será vivê-la?

Mas tu estás aqui, e dizes que eu consigo e que sou forte… Eu confio em ti, por isso tento acreditar. Não me ias mentir… Não tu.

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A vida em horas

10 Dezembro, 2007

Tenho de coordenar tudo… Preciso da minha agenda!! Onde é que ela está? Tenho a certeza que a deitei para dentro da mala depois de marcar a consulta do João… Malditos médicos, não podia uma pessoa chegar lá e dizer “Estou doente”?

Deixa-me olhar para o relógio… Não, não pode, 15h57 já? Ai, as 15h57, lembram-me coisas boas, coisas para as quais não tenho tempo…

Morre relógio, que não páras enquanto não a encontro… Morre para aí mais o tempo que vejo passar em ti! Odeio-te com todas as minhas forças, sabes? Odeio o ponteiro pequeno dos segundos, odeio o barulho que faz, aquele tac-tac irritante. Sim, tac-tac, porque não sei quem inventou que os relógios faziam tic-tac, mas os meus nunca mudaram de barulho a cada segundo. Não, este faz tac-tac.

Só encontro calendários nesta mala. Que mania de oferecerem calendários por tudo e por nada… De fazerem calendários até para causas de solidariedade (e solidariedade para comigo? A cada ano que vejo aproximar-se, a cada calendário novo que me entregam, vejo que se passou mais um ano. As minhas rugas já não perdoam, os brancos também não, mas escusavam de me estar sempre a pôr-me à frente a idade). As agendas já têm calendários que cheguem…

Para que é que preciso de uma agenda? Para me controlar a cada passo? Para não poder inventar um bocadinho durante o dia? Já não me lembro da última vez que saí e me esqueci de fazer algo… Sinto falta de me sentir irresponsável, como nos meus anos de escola, em que me lembravam as datas de entrega com dois dias de antecedência e passava duas noites acordada a fazer o que era preciso ser feito…

Eu sempre odiei agendas… Porque é que comecei a andar com uma? Não me lembro, nem me lembro da primeira já, mas deve estar algures na gaveta das agendas antigas… Já não a abria há séculos… Que medo, são tantas… Há tantos anos assim que tenho a minha vida controlada?

Horas depois, achei a minha agenda… Arranquei-lhe as folhas uma a uma.

foto: the notebook por ~bloxham

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Chocolate

7 Dezembro, 2007

Levantamo-nos e apanhamos a roupa interior espalhada pelo chão…

É isto, é acordarmos juntos, adormecermos pele com pele… Poder abraçar-te quando acordo por causa de um pesadelo… Adormecer de camisola de alças porque não tenho frio contigo…

Encontro um dos meus ténis, tu encontras o outro e as tuas calças…

“Põe um bocadinho mais para a direita, agora sobe o canto esquerdo… Acho que assim está bem, troca comigo para veres como fica e se gostas.” E decorarmos o nosso quarto, com arte pop e papel de embrulho, que nós não precisamos de coisas caras, não precisamos nem gostamos de mostrar nada a ninguém, a não ser que nos amamos.

As tuas calças estão pouco longe das minhas… Vais ao corredor e mandas-me as minhas camisolas, atiradas em qualquer momento para perto da porta da despensa…

Pensarmos o mesmo ao mesmo tempo… Termos os mesmos conceitos de vivência, a maneira de pensar parecida… Somos diferentes, é certo, mas acima de tudo somos iguais.

Encontras as tuas perto da cozinha, já as vestiste e já estás de volta ao pé de mim.

E ainda não precisámos de fazer sandes quando cozinhamos… Já temos o livro de receitas indianas e metade das especiarias… Temo-nos um ao outro e complementamo-nos até a cozinhar…

Pegamos nas chaves, tu já te calçaste… Saímos e vamos comer o nosso bolo de chocolate ao café do lado…

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Quero

28 Novembro, 2007

– Não queres antes ir no comboio das 16h52?

Quero perder-me contigo um pouco mais… Não suporto o facto de mal termos tempo para dizer adeus… Não gosto de o dizer, é horrível, mas prefiro poder dizê-lo… Não aguento que estejamos tanto tempo longe… Odeio a teoria da relatividade… Odeio que um dia sem ti me pareça uma eternidade… Fica mais uns minutos, nem que eles me pareçam segundos…

– Apetece-me perder o comboio hoje…

A mim apetece-me adormecer outra vez no teu ombro de luz acesa… Não a quero apagar, quero confirmar que estás mesmo aqui comigo. Quero sentir-te junto a mim, não quero que metade de mim não esteja presente… Porque a outra metade desaparece com ela…

– Não podes perder os comboios para sempre?

E ficarmos sempre aqui… Aqui ou em qualquer outro lugar, mas juntos… Quero poder parar o tempo, eternizar cada segundo de felicidade que me dás, cada momento único que temos juntos…

– Prende-me aqui e não me deixes sair…

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Jornais de 2008

25 Novembro, 2007

Todos os dias… Já nem sabia quantos dias tinham passado, já nem sabia que dia era, porque os jornais em que dormia tanto eram de 2005 como de 2007… Será que já estaria em 2008? Se assim fosse, a sua filha mais velha faria 30 anos…

«És uma desilusão para todos os que te rodeavam… Estás melhor longe.»

Ainda se lembrava dela pequena, a pedir com os olhos brilhantes que lhe comprasse o chocolate que estava na montra da pastelaria… O chocolate que ele não podia comprar… O chocolate que acabou por comprar depois de um ano sem gastar nada consigo, um ano a andar com os mesmo sapatos gastos e rotos, para poder comprar o chocolate que a menina queria…

«Ninguém te quer por perto, só trazes confusões.»

E os dezoito anos dela, que se celebraram junto à lareira por não se poder fazer mais nada… E o pequeno estava a fazer dez daí a dois meses… Já jogava à bola como um campeão e sonhava ser estrela como o Eusébio, poder jogar perante todas aquelas pessoas… A plateia a aplaudi-lo… Plateia que por enquanto não passava das pedras da rua e o gato da vizinha, que ocasionalmente tinha de fugir do objecto redondo que ia na sua direcção…

«Nunca trouxeste bem nenhum a ninguém.»

Há uns anos tinha descoberto que a menina era agora mulher e mãe… Era enfermeira e tinha um marido médico… Estava bem, esperava… Bem melhor do que com ele perto. Ele não trazia bem nenhum a ninguém…

«Nunca deste alegrias a nenhum deles.»

– E o chocolate? Ela ficou tão feliz que só comeu um quadradinho por semana e o chocolate durou meses… E o miúdo quando lhe fiz a primeira bola de trapos e o ensinei a jogar? E a cara da minha mulher quando eles nasceram? Talvez eu tenha feito alguma coisa…

«Não te iludas… Ninguém te quer…»

– Não, não vou atrapalhar a vida de mais ninguém…

E adormeceu…